Estudo de coorte

Estudos observacionais em epidemiologia

Wanderson Oliveira, MSc, PhD

Epidemiologista · Professor · Pesquisador

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Objetivos da aula

  • Reconhecer quando a coorte é o desenho adequado
  • Diferenciar coorte prospectiva, retrospectiva e ambispectiva
  • Calcular incidência acumulada, taxa de incidência e risco relativo
  • Interpretar risco relativo, diferença de risco e fração atribuível
  • Identificar os vieses mais frequentes, em especial as perdas de seguimento
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Roteiro da aula

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Onde a coorte se encaixa

  • Estudos observacionais: o pesquisador observa, sem alocar a exposição
  • Coorte: parte da exposição e acompanha os grupos até o desfecho
  • Caso-controle: parte do desfecho e busca a exposição no passado
  • Transversal: exposição e desfecho medidos no mesmo momento
  • Ensaio clínico: o pesquisador aloca a exposição, em geral de forma aleatória
Na coorte, a exposição é conhecida antes do desfecho. É isso que permite medir incidência.
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Um exemplo clássico: os médicos britânicos

  • Em 1951, médicos registrados no Reino Unido receberam um questionário sobre o hábito de fumar
  • Responderam 40.701; a análise de 50 anos incluiu 34.439 homens
  • A exposição foi atualizada em novos questionários ao longo das décadas
  • O desfecho foi a mortalidade por causa, obtida pelos registros de óbito
  • Após 50 anos, fumantes regulares viveram, em média, até cerca de 10 anos a menos
Uma coorte pode ser longa, mas a pergunta é simples: quem foi exposto adoece mais?
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Tipos de coorte: pelo tempo

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Coorte fechada e coorte aberta

Duração do seguimento diferente entre as pessoas pede pessoa-tempo, e não só a proporção.
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Quando usar e quais são os limites

Perguntar sempre: o desfecho é frequente o bastante para aparecer no tempo de seguimento que cabe no projeto?
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Montar a coorte: expostos e comparação

  • Definir a exposição com precisão: o que, quanto, desde quando
  • Escolher um grupo de comparação da mesma população-fonte, sempre que possível
  • Comparar com a população geral só quando não houver grupo interno
  • Incluir somente quem está em risco do desfecho, sem o desfecho no início
  • Registrar antes do seguimento os confundidores conhecidos
Os grupos devem diferir pela exposição, e não por tudo o mais.
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Medir exposição e desfecho

  • Critério do desfecho explícito e igual para os dois grupos
  • Fonte da informação: exame, registro, prontuário ou sistema de informação
  • Avaliação do desfecho sem conhecimento da exposição, quando possível
  • Exposição que muda no tempo: reavaliar durante o seguimento
  • Registrar a data do desfecho e da saída do estudo de cada participante
Medir a exposição uma só vez, no início, pode classificar mal quem muda de hábito.
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Seguimento e perdas

  • Perda de seguimento: participante que sai e deixa de ser observado
  • Preocupa quando a perda se relaciona com a exposição e com o desfecho
  • Planejar formas de contato e registrar o motivo das perdas
  • Comparar quem ficou com quem saiu, nas características de base
  • Fazer análise de sensibilidade sobre o efeito possível das perdas
Perdas altas e diferentes entre os grupos ameaçam a validade do resultado.
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Incidência acumulada e taxa de incidência

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A tabela 2x2 e as medidas de efeito

Com desfechoSem desfechoTotal
Expostoa = 45b = 2570
Não expostoc = 15d = 3550
Total6060120

a: expostos com o desfecho

b: expostos sem o desfecho

c: não expostos com o desfecho

d: não expostos sem o desfecho

Risco nos expostos = a / (a + b) · Risco nos não expostos = c / (c + d) · RR = razão entre os dois
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Interpretar RR, diferença de risco e fração atribuível

  • Risco relativo (RR) maior que 1: a exposição se associa a mais risco do desfecho
  • RR igual a 1: sem associação; menor que 1: associação com menos risco (proteção)
  • Diferença de risco: quantos casos a mais a cada 100 expostos, em pontos percentuais
  • Fração atribuível nos expostos = (RR − 1) / RR: parcela do risco dos expostos ligada à exposição
  • Sempre apresentar o intervalo de confiança de 95%, não só o valor pontual
RR mostra a força da associação. Diferença de risco mostra o tamanho do problema.
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Confundimento e análise

  • Confundidor: associado à exposição e ao desfecho, sem estar na via causal
  • Restrição, estratificação e padronização, quando há poucos estratos
  • Regressão de Poisson ou binomial para razão de taxas ou de riscos
  • Modelo de Cox quando importa o tempo até o evento
  • No método, declare as variáveis de ajuste e a forma de tratar as perdas
Ajustar não corrige viés de seleção nem de informação.
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Os vieses mais frequentes

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Verificação rápida

Qual medida a coorte estima diretamente e o caso-controle clássico não estima?

Em uma coorte, 30% dos expostos e 10% dos não expostos desenvolveram o desfecho. Qual é o risco relativo?

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Exercício: risco, risco relativo e taxa

  • Coorte fictícia de 500 trabalhadores: 200 expostos a um agente ocupacional e 300 não expostos.
  • Ao final, 40 expostos e 24 não expostos tiveram doença respiratória crônica.
  • Seguimento total: 800 pessoas-ano nos expostos e 1.500 nos não expostos.
  • Monte a tabela 2x2 e calcule o risco em cada grupo, o RR e a diferença de risco.
  • Calcule a taxa de incidência de cada grupo e a razão de taxas. Discuta um possível viés.
Base didática: dados/exercicio.csv (500 registros, fictícios). Resolução no próximo slide.
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Resolução do exercício

Com desfechoSem desfechoTotal
Expostoa = 40b = 160200
Não expostoc = 24d = 276300
Total64436500

Risco: 40/200 = 20% nos expostos e 24/300 = 8% nos não expostos

RR = 0,20 / 0,08 = 2,5 (IC95%: 1,6 a 4,0)

Diferença de risco: 12 pontos percentuais. Fração atribuível nos expostos: 60%

Taxas: 50 e 16 por 1.000 pessoas-ano; razão de taxas = 3,1

Os expostos tiveram seguimento mais curto, o que eleva a razão de taxas em relação ao RR. Antes de concluir, verifique perdas e confundimento.
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Experimente: mude as células

Com desfechoSem desfecho Exposto Não exposto
Risco relativo
IC95%
Diferença de risco

RR = [a / (a + b)] / [c / (c + d)]. Diferença de risco (p.p. = pontos percentuais) = risco nos expostos menos risco nos não expostos. Valores fictícios, para exploração em sala.

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Checklist STROBE para coorte

  • Título e resumo que indicam o desenho do estudo
  • Objetivos e hipóteses
  • Fonte dos participantes, critérios de elegibilidade e método de seguimento
  • Definição de exposição, desfecho e confundidores, com a fonte de dados
  • Quantos participantes entraram, completaram o seguimento e foram analisados
  • Tratamento das perdas de seguimento e dos dados faltantes
  • Medidas de efeito com intervalo de confiança e variáveis de ajuste
  • Limitações, incluindo viés e confusão residual
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Referências

  • Doll R, Hill AB. The mortality of doctors in relation to their smoking habits: a preliminary report. Br Med J. 1954;1(4877):1451-5.
  • Doll R, Peto R, Boreham J, Sutherland I. Mortality in relation to smoking: 50 years' observations on male British doctors. BMJ. 2004;328(7455):1519.
  • Rothman KJ, Greenland S, Lash TL. Modern epidemiology. 3. ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2008.
  • von Elm E, Altman DG, Egger M, Pocock SJ, Gøtzsche PC, Vandenbroucke JP. The STROBE statement: reporting observational studies. Lancet. 2007;370(9596):1453-7.
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Wanderson Kleber de Oliveira
Epidemiologista e Pesquisador no Hospital das Forças Armadas/Ministério da Defesa
Professor de Medicina no Centro Universitário Uniceplac
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